Quatro balas e uma ideia

Para Marielle Franco

Edson Perini (desenho de Rafael Ludicanti)

Alguns milésimos de segundo separam a explosão da espoleta e o momento em que a primeira bala era ejetada da pistola 9mm. Pouco, mas suficiente para que todos aqueles pensamentos transitassem entre os hemisférios da cabeça de Severino. Deitado em sua rede, suado, ele se sentia incômodo com a falta de um banho que tornasse seu sono relaxante, e ainda chorou uma lágrima preciosa pela escassez da água. No lumiar da lamparina, já inebriado pelo cheiro do querosene queimado, ele repassou seu dia. E verteu outra preciosa gota pela fuligem que toda manhã enegrecia as bordas de suas narinas e o envergonhava ao denunciar a falta de eletricidade em sua casa. Da longa caminhada até a escola, a memória o levava pelo vale que se distanciava da estrada, e formava a imagem da casa que dava guarida à sua esperança de um amor que não entendia bem, mas que sentia as primeiras pontadas sempre que via ou pensava naquela menina de maria-chiquinha, sempre na primeira fila das carteiras. Sonhava com um tempo sobre o qual não dominava sua dimensão. Com um momento de sua vida no qual encontraria uma flor entre os galhos secos, acreditando na retribuição da gentileza com um sorriso perturbador, desses que observava entre os poucos adultos que conhecia. Das aulas nada lembrava, pois o cansaço da caminhada, a noite mal dormida por causa do calor e das dores provocadas pelo trabalho pesado que realizava com seu pai não ajudava no raciocínio abstrato. Mas a fome provocada pela falta da merenda ainda era viva até aquele momento, tão viva quanto a explicação costumeira e evasiva da professora, único momento em que ela abandonava sua amabilidade e falava com a turma olhando para o teto ou para a pequena janela da sala de aula. Também era colorida a lembrança da agonia no caminho de volta, distraída pelo arrastar da sandália na poeira e nos pedregulhos, um dos poucos sons que acalmava seu espírito. O calor era intenso e, agora deitado na rede, só não era maior que a temperatura da bala ao sair do cano da arma.

O silencio em sua casa contrastava com a segunda detonação. Mais alguns milésimos de segundo, e esse foi o tempo suficiente para Maria Anastácia entrar no elevador após seu dia de faxina no escritório e, posicionada à frente de seu chefe, sentir a mão e o quadril que tocavam seu corpo. Já nem importava a ela os grunhidos balbuciados, pois sabia que entre eles algumas palavras inaudíveis e diárias faziam referências às suas formas e sua posição social, deixando claro que qualquer reação implicaria em dificuldades impensáveis para seus dois filhos, órfãos de bala perdida. Nunca entendeu e expressão. A questão da cor da pele já era para ela um detalhe de menor importância.

Como de costume, o tempo foi suficiente para ela encurtar a viagem de elevador e decidir terminar seu caminho pelas escadas, não sem medo, não sem correr riscos, também suficiente para, como de costume, engolir o medo e seguir em frente. Não seria muito diferente adiante, no ônibus e nas centenas de degraus que separavam sua casa desse mundo. Só mesmo a vista do mar, e a certeza de que seus filhos permaneciam vivos ao chegar davam a ela uma sensação tênue de que havia de fato um ser superior a olhar por eles. Uma sensação de alívio e descanso, ainda que breve, até reviver tudo no dia seguinte.

Chegar, alimentar os filhos, limpar, banhar e deitar. E não longe dali, aliás sempre perto demais, o terceiro estampido anunciava uma nova fração de tempo, com centenas de histórias, como a de um pai e seu filho, abraçados em um passeio pelo parque, atacados a pauladas, sem tempo para entender porque sangravam em nome de uma sentença de pertencimento a um gênero cujos agressores definem incompatível com um Deus que envenena almas. Histórias como das diversas viúvas e filhos e filhas de policiais em desespero nos cemitérios do país. Histórias embaladas por gritos de aleluia amaldiçoando hereges, exigindo a justiça do ‘bom livro’ e abafando protestos que denunciam dízimos que enriquecem pedófilos. Histórias de assassinatos de ruralistas, de políticos, de portadores de celulares, de turistas…

Três tênues fatias do tempo foram insuficientes para a população entender tanta maldade. Talvez por isso foi necessária uma quarta espoleta, uma quarta explosão, uma quarta fatia do tempo, suficiente apenas para o pequeno Joaquim sentir toda a dimensão de tamanha força. Sentir, porque insuficiente para entender. Porque nada explicaria de forma convincente como um pequeno artefato acaba com os sonhos que uma mãe acalentava como forma de driblar o dia-a-dia de confrontos. Tempo insuficiente para explicar porque, no fundo, todos ali sabem de alguma forma que os sonhos não podem sobreviver muito tempo entre tantas espoletas. Mas sua mãe tinha visceralizado a reação de deitar-se a cada estampido, o que Joaquim ainda não fizera. E por isso, no breve tempo entre o estampido da última espoleta e o momento em que a bala era ejetada, ele aprendeu de forma definitiva que essa vida não foi feita para ele, que o país não sabia protege-lo, e ele partiu antes do quarto projétil impactar-se no espaço onde a ideia encontrou solo fértil.

E foram quatro estampidos, em meio à rajada, naquela pequena sequência de frações de segundo, e quatro projéteis atravessaram uma ideia de liberdade, de igualdade e de fraternidade. Uma ideia plantada há mais de dois séculos, perfurada por quatro balaços, que se espalhou como o sangue aspergido no banco do carro. Uma ideia sem corpo, residente em multidões, fermentando, esperando o dia de florescer sobre mãos manchadas pelo sangue dos que não a compreendem, se recusam a aceitá-la, e ignoram como outrora ela exigiu cabeças em praça pública.

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O PODER DA PALAVRA

por Eliane Almeida

AAAA

Para quem vive de palavra, a vida é um palco onde os atores representam os seus papeis em um mundo que apenas sabe viver em voz alta. Vozes ferrenhas, egos feridos e mentes vazias completam o cenário maestral. A palavra pode ser a tentativa de preencher o vazio da falta. Fala-se muito! Falta-se muito! Não há nada mais explícito do que o som do Nada. Para quem vive o silêncio, e reconhece o poder da palavra, Ela é faca de dois gumes: Ela vai e não volta, Ela atravessa, Ela acalenta ou destrói. Há quem saiba usá-la nos momentos certos e àqueles que preferem o silêncio. O silêncio também é palavra. Ele fala! Ele grita! Ele sorri, Ele ignora, Ele canta e Ele chora! Não há nada mais implícito do que o som do Tudo!

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Gratitudine

por Mariana Fontoura Lana Nascimento

E no vendaval das emoções tentava quantificar o querer, como se fosse o atalho adequado para a calmaria e discernimento. Desejava ser sol onde em tanto fora noite. A ansiedade do autoconhecimento corre junto às delineadas respostas do futuro não tão distante. Vital é o presente, porém haja tanta sede perante o amanhã. Entre súbitas e singelas paralisações diárias, driblava as adversidades na linha tênue que se criava entre o papel e caneta em punho escrevendo: ” – Para hoje, uma dose de gratidão na nascente da imensidão.”

Capturar

Fonte: acervo pessoal

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20/01: Dia do Farmacêutico

                                                                                                                                          por Nayara de Salles

E hoje é Dia do Farmacêutico!

Como diria Carlos Drummond de Andrade:

“Farmacêuticos, em todos os tempos e lugares, trazem mesmo lições de amor às pessoas. Aliás, para o farmacêutico, amar não é apenas o verbo transitivo direto que se aprende a conjugar, nas escolas. Amar é ação. A ação de servir, a qualquer hora de qualquer dia e em qualquer lugar. É cuidar, é promover a saúde, é salvar vidas”

E aí vai um poema do mestre que, além de artista, era também farmacêutico.

DESEJOS 

Desejo à você…
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
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Lady d’Arbanville

Hoje uma homenagem a Cat Stevens.

Quem curtiu sabe porque. Quem não curtiu vai saber.

Uma bela canção feita para sua primeira namorada. Um grito pelo amor.

My Lady d’Arbanville, why do you sleep so still?
I’ll wake you tomorrow
And you will be my fill, yes, you will be my fill.

My Lady d’Arbanville why does it grieve me so?
But your heart seems so silent.
Why do you breathe so low, why do you breathe so low,

My Lady d’Arbanville why do you sleep so still?
I’ll wake you tomorrow
And you will be my fill, yes, you will be my fill.

My Lady d’Arbanville, you look so cold tonight.
Your lips feel like winter,
Your skin has turned to white, your skin has turned to white.

My Lady d’Arbanville, why do you sleep so still?
I’ll wake you tomorrow
And you will be my fill, yes, you will be my fill.

La la la la la

My Lady d’Arbanville why does it grieve me so?
But your heart seems so silent.
Why do you breathe so low, why do you breathe so low,

I loved you my lady, though in your grave you lie,
I’ll always be with you
This rose will never die, this rose will never die.

I loved you my lady, though in your grave you lie,
I’ll always be with you
This rose will never die, this rose will never die.

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Feitiço de Áquila

por Edson Perini

Isabeau, ave majestosa, flutua portentosa

triste grito sob a luz do sol

 

Navarre, negro fausto, caminha exausto

uiva a sina na escuridão

 

Isabeau e Navarre têm o crepúsculo

breve momento de sonho

como eu

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Nadas

Rafael Ludicanti

Eu, logo eu,

estou pensando sobre o nada.

Logo eu que não sou ninguém.

Ninguém é o nada em pessoa.

 

Ninguém está aqui,

disse Odisseu ao Cíclope.

 

Ninguém me furou o olho,

disse o Cíclope cego.

 

Não sabíamos de nada,

disseram os burocratas.

 

É preciso ser alguém

para não dizer nada impunemente.

(trecho do livro de poemas Autodesconsideração ou prática da desimportãncia,
em sua parte – Nadas. Publicado com autorização do autor.)

 

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O escrivão

por edson perini

Da memória de um escrivão da justiça agora preso a este mundo por tênue fio surge a certeza da complexidade humana na sabedoria simples de um homem do campo iluminando a cena em que um juiz questiona testemunha sobre possível motivo do crime …

“Coração dos homens é terra onde ninguém anda”

… e de suas lembranças o velho escrivão confiou a mim a ciência simples e a complexa verdade.

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Sobre internet, filosofia e teologia, sebos e ácaros

Edson Perini

Minha memória é clara quando penso nos velhos sebos pela cidade. Acho que eu conhecia todos. Era milagreiro e medieval, como as rezadoras. Era só perguntar por um livro antigo, ou velho, ou usado, ou não tão velho e lá ia aquele que se confundia com o amarelado das páginas, camisa entreaberta alimentando minha dúvida sobre a origem do nome desse tipo de comércio. Eu admirava tudo aquilo; acompanhava o movimento sem pressa do ser amarelado que corria os dedos sobre pilhas de livros assentadas em caixotes, ou por lombadas daqueles que no seu julgamento eram mais importantes, e por isso compunham as prateleiras que cobriam todo o ambiente. Não tinha erro. Se não houvesse chance de achar ele sequer levantava a bunda da cadeira. Mas se por acaso se desse a esse trabalho você tinha 90% de chance de sair com o livro nas mãos. Ou simplesmente devolvê-lo com a cara também amarelada pelo dinheiro curto – como soía (essa achei num sebo,) acontecer no meu caso. Mas isso não importava. Logo estaria ali outra vez buscando algo ou simplesmente olhando o ambiente. Buscando nada. Sentindo o cheiro de livro velho, e a coceira provocada pelos ácaros em seus passeios por mãos e braços.

Nunca mais fui e isso faz tempo. Fiquei adulto, virei trabalhador e pai. O dinheiro, agora mais disponível, não adianta muito. Nem mesmo leio direito os livros que amarelam em minhas prateleiras. Em geral ficam pelo meio do caminho… marcadores esquecidos ou a pontinha de cima da página dobrada. Ou a orelha da capa separando-as em eternas duas partes. Mas não esqueço que devo a eles o manuseio, devo aos ácaros a oportunidade do passeio. Mantenho a esperança de retomar a leitura a cada instante que me ponho consciente ou esperançoso de que isso vai passar. Assim como minha nonagenária mãe não se esqueceu de um dos livros favoritos de sua adolescência, perdido na insensatez de um irmão que o tomou emprestado sem a devida cautela de devolvê-lo. Essa memória a incomoda, e a todo instante vem atormentar sua cabeça. E ela não perdoa a insensatez fraterna, certamente com suas razões.

A internet é às vezes um pouco cruel, mas é realmente fantástica. Sem problema, abri meu computador e com uma simples busca lá estava o livro em uma prateleira virtual. Tal qual ela falava. Bom… não foi assim tal qual, pois a capa de sua lembrança era vermelha e na tela surgia um de capa branca. Baratinho para meu dinheiro de agora, cartão de crédito na mesa, postagem e ele chegou. Emocionado abri o pacote e logo senti a coceira dos ácaros em seu passeio pelas mãos e braços. Amarelado como deveria ser, e com o velho cheiro de um legítimo sebo. Não pude ver quem esteve no interior de meu computador; uma sombra do passado talvez. Não sei se precisou levantar a bunda da cadeira. Não sei se ele ainda é amarelado como o ambiente. Ao me deitar imagino que não é assim, e fico criando a cena – entre chips e placas digitais, entre números binários, um ser matrix se move e busca algo em uma prateleira que não existe, em pilhas de livros sobre caixotes virtuais. Mas logo desfaço a imagem, pois os ácaros deram o testemunho da realidade – é um livro velho, pertencente à adolescência de uma nonagenária, minha mãe. Folhas rabiscadas por uma criança me lembram de alguns dos meus, fruto de estudos com filhos pequenos no colo. Lembro-me de momentos que não queria que isso acontecesse, mas a força da realidade era maior. E hoje agradeço aos anjos que me sopraram: deixe-os rabiscar! como a dizer, quem sabe, um dia alguém comprará esse livro e se perguntará, como faço agora, quem terá sido essa criança, como terá sido a cena, será que ela apanhou por crime tão inocente. Pego meu dicionário de inglês, o mais rabiscado de todos, vejo os rabiscos e me lembro de cenas impagáveis. E me lastimo aos anjos que não me alertaram para ser mais tolerante.

Olho a marca antiga da Companhia Melhoramentos de São Paulo, uma bola com três estrelas, uma cruz e um corvo pousado. O que me dirá? Quantas vezes vi esse símbolo sem prestar a devida atenção, ou sem entendê-lo. Coleção Seleta, livro Vários Estilos, seleção organizada por Arnaldo de Oliveira Barreto, em sua 12ª edição (a da minha mãe deveria ser outra com a capa vermelha e lastimo a não coincidência). Para uso em aulas do ginásio e escolas normais, diz em seu frontispício (essa também vem dos sebos). A garotada de hoje vai ter que voltar à internet para saber o que é isso. Sigo as páginas… mãos coçando, estranho ficar agoniado com isso, e vejo surgir sonetos, pequenos textos e contos, figuras coloridas, um longo poema intitulado As três formigas, seis páginas de estrofes com quatro versos, rimas entre primeiro e terceiro, segundo e quarto, este centralizado e concluindo a cada estrofe a aventura das três na longa e dura escalada pelo muro de D. Estela, senhora de uma alcova, o medo das três em aventurar-se na caminhada que esperavam ser um périplo (outra dos sebos), e o fascínio pela flor no vaso, maior que o medo, e no final o tufão do sopro de D. Estela que as lançam longe para uma morte heroica. Sigo, encontro versos alexandrinos… acho que são, mas não contei sílabas. Como alguém é capaz de fazer isso? Percebo que já nem sei muito bem separar sílabas; basta justificar o texto no ícone. Lembro-me também que no início os computadores tinham programas para silabação automática do texto. Quem conheceu o Wordstar sabe bem disso. Quem trabalhou no DOS… bom, deixa pra lá! Alguém hoje estuda isso? Os meninos aprendem a separar sílabas? Lembro-me da letra de Construção, do Chico Buarque, não alexandrino mas trabalhado para que cada verso fosse terminado em uma proparoxítona, palavras raras e sonoras para uma canção.

Não posso levar o livro assim para ela, pois pessoas idosas são mais sensíveis, pensei. Eu, que reluto para ser idoso, já fiquei incomodado com a coceira. Então aspergi álcool e deixei o livro ao sol. Depois o coloquei dentro de um saco plástico e aspergi mais álcool, fechei o saco e tome sol. Ele envergou, pobrezinho. Nada que uma pilha de livros pesados em cima não pudesse resolver. E lá vai a obra completa de Van Gogh servir de peso. E então lá está ele, amarelado mas sem ácaros, suponho. Não coça mais, pelo menos. Matei tudo, exterminei, esterilizei. O mundo hoje deve ser estéril, e não tem mais lugar para sebos e ácaros. E-books são estéreis. Começo a folhear novamente. E encontro no final algo digno das reclamações de minha mãe sobre a perda fraterna do livro, que aqui ouso reproduzir sem autorização e respeitando a ortografia:

“A filosofia é semelhante a uma flecha, que partiu do arco, depois de retesado, com incerta e falível pontaria; não é dado ao espírito humano desviá-la na sua aventurosa trajetória. Houve o intento de mirar a um alvo, e noutro foi cravar o tiro. O pensamento, uma vez despeado de suas cadeias, arremessa-se às alturas nebulosas da especulação e, pelos seus processos sutís, e paradoxos, alia, a cada passo, o ser e o não ser, a vaidosa convicção da humana majestade e a desconsoladora consciência do seu nada. Como duas irmãs, que tiveram o mesmo berço, e se foram depois na vida afastando mais e mais, irreconciliáveis e hostís, a filosofia e a teologia na antiguidade germinam do mesmo grão para logo se desunirem fatalmente.” (Latino Coelho)

Minha mãe tinha razão de reclamar a falta do livro. Fico tentando imaginar quantas lembranças trará a ela. Impossível imagem, e desrespeitosa, pois são dela e ninguém tem nada com isso. Deixe as lembranças com ela, diz-me um daqueles anjos (ou será o menininho verde que habita meu ombro?) e deixe-a viver suas lembranças. Você fez seu papel, diz-me o menino verde, agora fique fora disso. Ela ainda não sabe que receberá o livro. Quis dar a ela no dia das crianças, mas adultos têm seus limites – não podem fazer as coisas na hora que querem. Vou agora, noite adentro em um ônibus, longa estrada, o livro na mochila, pesando a carga do tempo e das lembranças. Uma coisa posso imaginar – o brilho nos olhos de uma senhora velhinha, que dedicou sua vida à minha e de meus irmãos e minha irmã. Ela ficará feliz? Razões para isso certamente terá.. Penso como um livro pode ser importante. Penso nos criadores da internet, que ficariam felizes por saber que o livro virtual pode não amarelar, não criar ácaros, mas sua criação permitirá esse momento que se aproxima a cada quilômetro percorrido…

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Quando eu morrer

Edson Perini

Quando eu morrer

quero estar só

Nu e só como nasci

 

Quando eu morrer

enterrem meu coração

à sombra de um Ipê branco

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